Entrevista com Ricardo Coimbra




Segundo o cartunista Bruno Maron: “ Coimbra pratica um niilismo ativo de alta voltagem, demolindo com prazer qualquer esboço de ideal ascético que porventura possa obliterar esse gosto pelo riso, o riso liberado de qualquer condicionamento moral. A ordem transcendente fica de calça arriada, com o cofrinho de fora.”
Ricardo Coimbra vêm se destacando na nova geração de cartunistas, sem amarras e com liberdade ideológica, vamos conhecer um pouco mais do que faz e o que pensa este cara gente boa e se é possível dizer assim, de uma humildade ácida!



1- Permita-me dizer que quando entrei em contato com o seu trabalho, a primeira coisa que me veio a mente foi: " Oh, meu Deus, enfim um cartunista que vive o que prega" ! Por que voce projeta seu olhar crítico sobre tudo, o que é ótimo! Fale-nos um pouco sobre isso.
Ricardo Coimbra - Não sei se sou exatamente um cartunista que vive o que prega. Mesmo porque eu nem sei o que eu prego. (risos) Eu acho que eu não prego nada. Outro dia, nos comentários de uma tira na internet, alguém disse que eu não passava de um provocador barato. Curti, mas acho que até esta definição é muito pomposa pra mim. Eu acho que eu sou só mais um chato com acesso à banda larga.

2- Primeiramente fale-nos um pouco sobre sua trajetória até se consolidar como um cartunista.
Ricardo Coimbra - Olha, agradeço suas palavras mas acho você está me superestimando. Não sei exatamente o que significa ser um cartunista consolidado, mas o que quer que seja isso, certamente não é o meu caso. Não vejo no meu trabalho uma assinatura gráfica bem resolvida e nem um texto muito original. E, pra ser sincero, nem profissional eu sou, já que não vivo disso. Agora, se você estiver querendo saber como foi que entrei nessa pilha errada de quadrinho, acho que posso dizer que tudo começou ali pelo fim da década de 90, em Minas Gerais. Nessa época eu cursava jornalismo na federal de Juiz de Fora e passei a fazer uns cartuns em jornaizinhos de DCE, zines, tabloides de humor, pequenas revistas alternativas do circuito universitário, participava de mostras, o que pintasse na reta. Quando me formei, vim pra São Paulo trabalhar com outras coisas e acabei deixando os quadrinhos meio de lado. Isso foi em 2007. Em 2009 fiquei desempregado e voltei a desenhar. Foi quando fiz uma página no blogspot pra publicar minhas tirinhas, que é onde publico até hoje (acho que sou a única pessoa sobre a face do globo terrestre que ainda usa blogspot). Nesse meio tempo participei da revista Xula com meus amigos Calote, Bruno di Chico, Luciana Foraciepe e Bruno Maron e lancei pela editora Gato Preto uma coletânea impressa de tirinhas chamada Vida de Prástico. Acho que esta é toda minha trajetória.

3- Seu trabalho tem influência forte dos quadrinhos contestadores dos 80.
Ricardo Coimbra - Não sei se estamos pensando na mesma coisa, mas se você estiver se referindo à Chiclete com Banana, à Circo, aos Piratas do Tietê, a resposta é sim. Acho que quase todo mundo que mexeu com quadrinho de humor no Brasil depois dessa galera tem alguma influência deles, né? A década de 80 foi bem importante pra mim. Teve também a Casseta Popular, o Planeta Diário, a Mad do Ota, o Marcatti, o Mutarelli, que não era exatamente humor, mas que eu li muito nesse bolo aí.

4- Hoje em dia infelizmente parece que o humor engajado tomou conta do cartunismo e no seu trabalho vemos exatamente o contrário, você tira sarro da cafonice e rigides da direita, como da breguice e chateação politicamente correta da esquerda, fale um pouco sobre isso.
Ricardo Coimbra - Uma coisa que eu acho curiosa é que, quanto mais velho eu fico, menos certeza sobre as coisas eu tenho. Tenho quase 40 e, não só não aprendi nada com a idade, como as poucas coisas que eu achava que sabia, comecei a duvidar delas seriamente. E não estou falando sobre política apenas, estou falando da vida de uma maneira geral. É claro que tenho minhas intuições sobre as coisas, mas são apenas intuições. Nada que me autorize a sair por aí enfiando o dedo na cara
dos outros, dizendo a eles o que é certo ou errado ou o que eles deveriam fazer nesta ou naquela situação. Então, eu estranho muito quando olho ao redor e vejo como as pessoas estão cada vez mais cheias de certeza. Seja o seguidor da tradição, família e propriedade, seja o pastor querendo controlar o cu da galera, seja o defensor da mão invisível do mercado e, principalmente, seja o guerreiro da justiça social, metido na neurose da militância política, a mim parecem todos defensores de coisas que eles acham sagradas. É uma estrutura religiosa de pensamento. E  eu sempre entendi o humor como uma instância para a qual nada é sagrado. Esta talvez seja uma das minhas poucas certezas. Qualquer coisa que soe como inatacável, como consenso, como tabu, vira um alvo quase instintivo do humorista. É da natureza desta linguagem. E não depende apenas de quem a manipula. O humor tem seus desígnios misteriosos, uma coisa pode se tornar mais ou menos propensa a ser ridicularizada em um determinado momento de acordo com uma dinâmica que nem sempre podemos controlar, é uma alquimia extremamente volátil. Por isso, sempre vejo com ressalva toda tentativa de instrumentalizar o humor, essa coisa do humor engajado, educativo, com lição de moral. Um exemplo que eu sempre uso quando tocam nesse tema é uma expressão que virou quase um truísmo da militância de esquerda: "o humor tem que atacar o status quo". Ok, mas qual status quo? Porque quando você começa a dizer pras pessoas do que elas devem rir ou não, você passa a ser também uma espécie de status quo. É claro que você tem a opção de colocar seu talento a serviço de uma causa, é uma abordagem possível. Mas está longe de ser a única. Eu, particularmente, mesmo me considerando bastante medíocre, me sentiria profundamente incomodado imaginando que alguém pudesse dar atenção ao meu trabalho não por suas qualidades artísticas mas por solidariedade ideológica.

5- Quais os autores que mais influenciaram seu trabalho?
Ricardo Coimbra - Bom, alguns eu já citei sobre a geração da década de 80: Angeli, Laerte, Glauco, Adão, Reinaldo e a galera do Casseta e Planeta, Marcatti, Mutarelli, Mad. A geração seguinte, Allan Sieber, Dahmer, Arnaldo Branco também teve um peso decisivo. Fora do Brasil, o português José Carlos Fernandes, os americanos do quadrinho alternativo das décadas de 80 pra 90, Clowes, irmãos Hernandez, Debbie Drechsler. Mais recentemente, o Mauro A. (do Wagner&Beethoven), a Alexandra Moraes e meus colegas de Xula, Di Chico, Maron e Calote, caras que eu já plagiei sem piedade. E muita coisa fora do quadrinho também: Hermes e Renato, Simpsons, as coisas do Larry David, Escolinha do Professor Raimundo, Bob Esponja, os caras que escreviam no Pasquim, Ivan Lessa, Fausto Wolff, Paulo Francis. É uma maçaroca meio sem pé nem cabeça, admito. E falta coisa aí, óbvio.

6- Voce possui personagens fixos ou há planos para isso?
Ricardo Coimbra - Tem o Osmar (que eu fiz umas 10 tiras e abandonei) e alguns tipinhos recorrentes (a menina com tatuagem de mandala, o hipster de echarpe, o universitário barbudinho de bandana, etc.) que são mais fruto da minha preguiça e falta de criatividade do que de um trabalho consistente de criação de personagem. Eu penso mais em termos de situações, não tanto em personagens fixos.

7- As Tiras são o formato ideal para expressar suas idéias?
Ricardo Coimbra - O que acontece é que o formato de tirinha exige muita concisão e, apesar de eu curtir o ato de pensar o quadrinho, eu não gosto muito de desenhar. Então eu acho que não é que as tiras sejam o formato ideal pras minhas ideias, eu é que fiz minhas ideias caberem nesse formato por preguiça. Tanto que às vezes tenho ideias pra histórias longas de 4, 5 páginas que eu logo faço virarem tirinhas de 3 quadros. E, mesmo quando a história sai com várias páginas, você percebe que é, na verdade, uma tirinha que eu fui enchendo linguiça pra ocupar mais espaço.

8- Fale sobre a coletânea de seus trabalhos " Vida de Prástico ", como tem sido o retorno e sua parceria com a Gato Preto.
Ricardo Coimbra - A coletânea foi lançada em dezembro do ano passado pela Editora Gato Preto e é um apanhado das principais tiras, cartuns e histórias em quadrinhos que publiquei entre 2009 e 2014. É material que saía com relativa periodicidade no meu blog, o Vida e Obra de Mim Mesmo (http://vidaeobrademimmesmo.blogspot.com.br), mas também tem muita coisa que saiu em outras publicações, como a revista da Cultura, coisas que fiz especialmente pra matérias da Trip e do Estadão e, principalmente, coisas da Xula (como a história que dá nome à coletânea, "Vida de Prástico"). Um trabalho super cuidadoso do Zé Rodolfo e da Ana Muriel da Gato Preto, ( confira nossa entrevista com a Gato Preto AQUI!)que foram fundamentais tanto no projeto gráfico quanto na escolha do material. Dá pra comprar no site da editora ( http://www.gato-preto.com/loja/livro/vida/) ou na minha lojinha virtual (http://www.vidaeobrademimmesmo.com.br).
Vida e Obra de Mim Mesmo

9- Suas tiras tem também um detalhe muito bonito, no trabalho em degradês de cinza nelas, como surgiu essa idéia?
Ricardo Coimbra - Essa foi mais uma daquelas situações onde a necessidade imediata se sobrepõe a qualquer tipo de consideração estética. Na era pré-internet e pré-photoshop meus quadrinhos eram um preto e branco sombrio, cheio de firulas, um troço meio rococó que eu levava meses desenhando. Quando fiz o blog, vi que, pra ter uma produção frequente, precisaria simplificar um pouco as coisas. Criei um traço mais enxuto, com menos detalhes e menos sombras, mas sentia falta de contraste entre as personagens e os fundos e também sentia falta de preenchimento na tira. Então decidi cobrir todas as áreas com cor no baldinho do photoshop, mas não queria ter preocupação com escolha de paletas, essas coisas. A solução mais óbvia era: colorir a caralha toda em tons de cinza. Foi exatamente o que eu fiz. Nunca curti muito trabalhar com cor mesmo, então não foi difícil tomar essa decisão. No fim, olhei pro resultado, não achei grandes coisas, mas era legível e parecia coeso. Toquei pra frente sem pensar muito e, desde então, nunca mais fiz de outro jeito.

10- Como é seu processo de trabalho?
Ricardo Coimbra - Meu processo de trabalho é bem simples. Eu costumo montar uma gaveta com ideias que vou anotando em bloquinhos, pedaços de papel, guardanapos, o que estiver à mão. Escolhida a ideia, faço um esboço grosseiro num papel sulfite. Depois, ponho na mesa de luz, dou uma melhorada, escaneio, pinto de cinza no baldinho do photoshop e pronto.

11- Quais seu planos para um futuro próximo com seu trabalho?
Ricardo Coimbra - Colaborar com a Xula#2, lançar um livro com material inédito ano que vem e outra coletânea com tirinhas do blog assim que possível.


12- Agradecemos imensamente sua participação e o espaço está sempre aberto à voce Ricardo!
Ricardo Coimbra - Eu que agradeço a atenção e o espaço. Valeu!

Confira a seguir uma interessante retrospectiva feita em vídeo com Ricardo falando de seu trabalho!

Entrevista por Ed Oliver

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